Continuando a abordar o assunto
morte, perda e luto, segue mais um pouco do trabalho
que venho fazendo.
Freud, o criador da psicanálise,
muito influenciado pela crueldade da Primeira Guerra
Mundial (1914-1918), escreveu sobre a morte. Em 1915,
em seu artigo “Reflexões para os Tempos
de Guerra e Morte”, ele ressalta que falamos
da morte como se nunca fossemos acometidos por tal
fato, isto é, como se a morte só ocorresse
ao outro e ainda assim como obra do acaso: “no
inconsciente de cada um de nós está
convencido de sua própria imortalidade”.
Em relação
a encarar a morte, mesmo do outro, não somos
capazes de concordar que quem sofre somos nós
e não os mortos e por isso não há
a necessidade de ser feito algo para eles. “A
consideração pelos mortos que, afinal
de contas, não mais necessitam dela, é
mais importante para nós do que a verdade e,
certamente, para a maioria de nós, do que a
consideração pelos vivos.” (Freud,
1915)
Além de refletir sobre
o encarar da própria morte, Freud, em “Luto
e Melancolia” (1917), aborda a morte de alguém
próximo, isto é, a perda e suas conseqüências
para quem fica. O próprio Freud enfrentou,
não uma, mas algumas vezes, a morte de frente.
Tanto em relação à perda de sua
filha, seu filho e seu neto, quando em adquirir um
câncer em 1923 que o acompanhou até seus
últimos dias.
Os estudos relacionados à
morte e perda tiveram sua continuidade com outros
autores de grande importância para a psicanálise
e psicologia. Klein, Bolby, Winnicott, Segal e outros,
deram continuidade aos estudos freudianos, acrescidos
de importantes contribuições. Foi em
1917 que Freud escreveu seu estudo clássico
denominado "Luto e Melancolia" que serviu
como base e inspiração para esses outros
trabalhos. É interessante apontar que ele chama
a nossa atenção para o fato de que fugimos
da morte ao invés de aproveitar a vida, refugiando-nos
num mundo de fantasia e ilusões. (Oliveira,
2001)
De um modo geral, o luto
é a reação à perda de
um ente querido. Pode-se considerar também
o luto como uma reação à perda
de alguma abstração que ocupou o lugar
de um ente querido, como o país, o ideal de
alguém, um objeto pertencente a este alguém
e até mesmo uma outra pessoa que estivesse
como “substituto” do falecido.
Estar de luto é lamentar
a perda. Trata-se, segundo Freud, de um processo interior
difícil, lento e doloroso de adaptação
a essas perdas. De acordo com Judith Viorst em seu
livro “Perdas Necessárias” (1988),
o término dessa lamentação depende
de diversos fatores, dentre eles o modo como sentimos
nossa perda, da idade de quem perdemos, da nossa própria
idade, de como ocorreu a morte, de nossas forças
interiores e do apoio externo, além de depender
de nossa história pessoal. É uma etapa
necessária para superar a dor.
Segundo Bromberg (2000),
o luto é “uma ferida que precisa de atenção
para ser curada”. Para que haja esse processo
de cura é necessário reconhecer e aceitar
a realidade de que a morte ocorreu e que a relação
com o falecido agora está acabada. Além
disso, é preciso vivenciar e lidar com as emoções
e problemas que resultam dessa perda. Tudo isso leva
um período de tempo e depende exclusivamente
de cada indivíduo e da sociedade em que este
vive, pois cada cultura tem a sua maneira de encarar
a morte.
Como ponto de partida, Freud
diz em seus estudos que os sintomas ocasionados pela
perda de alguém são comuns tanto ao
luto quanto à melancolia: “a cessação
de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade
de amar”. E acrescenta que no caso da melancolia
há “uma diminuição dos
sentimentos de auto-estima a ponto de encontrar expressão
em auto-recriminação, culminando numa
expectativa delirante de punição”.
Abraham, em 1924, trouxe
uma grande contribuição para diferenciar
o luto normal do patológico. Para ele, as auto-acusações
dos melancólicos estavam mais ligadas à
pessoa perdida do que a eles mesmos. (Bromberg, 2000).
O processo psíquico do luto consiste na retirada
da libido do objeto perdido, isto é, da pessoa
morta. Porém o enlutado tem certa resistência
a abandonar essa posição, o que pode
levar à alucinação. Mas cada
pensamento e cada lembrança são hiper-investidos
e essa libido pode ir se desligando aos poucos até
que se liga a outros objetos. Este seria o término
do luto. Já o melancólico não
consegue se desligar pelo motivo de que ele sabe quem
perdeu, mas não tem idéia do que perdeu
nesse alguém. (Oliveira, 2001)
No luto, perde-se alguém.
Na melancolia perde-se algo em alguém e este
algo está inconsciente. (Freud, 1974)
Se você está
passando por essa fase de luto ou depressão
após uma grande perda, seja ela por morte ou
término de relação, saiba que
não é o fim do mundo e que você
não é a única pessoa que está
assim, pelo contrário, não há
quem não passe por isso. Essa é a vida.
Essa é a morte.
Renato Liberman