Somos diariamente afetados
por emoções e desejos que vêm
de fora e de dentro de nós mesmos. A percepção
do perigo externo é sempre consciente e nos
faz lutar ou fugir desses perigos.
Mas e as emoções
e os desejos que surgem do nosso interior e que nos
incomodam? Aquelas emoções como o ódio,
impulsos como a agressão e idéias como
a consciência de que um dia vamos deixar de
estar vivos? O que fazemos para eliminá-los?
Na realidade fazemos o mesmo,
isto é, ou os enfrentamos ou fugimos deles.
Mas como fugir de algo que está dentro de nós
e que nos acompanha onde quer que estejamos, e pior,
a todo o momento?
Lembre-se, somos seres humanos
e possuímos uma mente criativa. E esta mente
(humana) encontrou uma forma de enfrentar este problema.
Em psicanálise, chamamos esta forma de “fugir
do que nos incomoda dentro de nós” de
projeção.
Isto é, “projetamos”,
colocamos no mundo externo, aquilo que é nosso
e que tanto nos ameaça. Mas se somos o “projetor”
quem ou o que será a “tela” onde
será projetado o nosso conteúdo ameaçador
interno?
Você já deve
ter ouvido falar ou lido em algum lugar que “aquilo
que eu não gosto no outro é algo que
eu tenho e não quero enxergar”. Será
que não queremos enxergar ou, na verdade, não
conseguimos perceber que o que nos incomoda e nos
ameaça está em nosso interior? E este
é o mecanismo de projeção: não
temos consciência de um desejo ou emoção
ameaçadora que está dentro de nós,
por isso projetamos em objetos externos (pessoas,
coisas, animais, etc) e passamos a culpá-los
pelo nosso sofrimento.
Vou dar um exemplo bem simples:
“Uma vez, um homem
de 23 anos estava em consulta terapêutica quando
diz que não era traidor. O terapeuta não
havia dito nada, mas seu cliente acusou-o de ter insinuado
a traição. Deixou o consultório
e espalhou a todos os seus conhecidos que seu terapeuta
era um traidor”.
O que aconteceu foi que o
cliente, até certo ponto inconscientemente,
deve ter percebido um conteúdo (idéia,
desejo) seu de traição que, por ser
intolerável a ele próprio, não
podia admiti-lo conscientemente. Sua defesa foi projetá-lo
em seu terapeuta (objeto externo).
Talvez você não
tenha percebido ainda, mas quantas vezes fazemos isso
com pessoas a quem amamos e respeitamos? Muitas vezes
acabamos relações de amizade, casamento,
etc., porque projetamos no outro algo que está
em nós e ainda saímos da relação
nos sentindo vítimas da situação.
Um outro exemplo muito comum
é quando alguém afirma “...aquela
pessoa não gosta de mim...”, quando na
realidade é o oposto.
Veja abaixo mais alguns casos
comuns:
“... eles só pensam em sexo...”
“... o governo não faz nada para melhorar...”
“... você viu o que ele fez para mim ...
que pessoa má!”
E assim por diante. São
pensamentos e sentimentos projetados no outro.
Também usamos muito
a projeção quando temos amor por um
ídolo qualquer ou quando ficamos tomando conta
da vida de alguém, como se fosse a nossa própria
vida e até falamos mal desta pessoa, mas há
uma identificação tão grande
que ciúmes, inveja, normalmente estão
presentes nestes casos. “Não julgues”,
dizia Cristo. O julgamento é o fracasso da
compreensão.
Além de tudo isso,
a projeção está presente nas
religiões e nas superstições,
mas é um assunto muito vasto que poderemos
abordar em outra ocasião.
A única forma que
temos de reconhecer em nós o mecanismo da projeção
é através de um autoconhecimento profundo
e não apenas com leituras de livros, pois estas
nos ajudam muito, mas pelo próprio mecanismo
de projeção e outros mecanismos de defesa
do ego, as leituras são limitadas ao que queremos
entender.
É hora de não
reprimirmos essa sombra que emerge, e sim, tomarmos
consciência dela, reconhecê-la e assumi-la.
A sombra é que nos segura no avanço
da vida. Na realidade todos nós devemos ir
mais fundo para encontrar a tão sonhada liberdade
que procuramos geralmente fora de nós e que
se encontra tão pertinho, tão dentro
de nós mesmos.
Ilumine a sombra e verá
que ela desaparece e você se ilumina.
Renato Liberman